quinta-feira, 16 de junho de 2011

OS VERSÍCULOS SATÂNICOS - SALMAN RUSHDIE


Título: Os Versículos Satânicos
Título original: The Stanic Verses
Autor: Salman Rushdie
Editora:Planeta
ISBN:972-747-412-8

Narrativa magistral, plena de energia nas suas 490 páginas. Revisitação de um Ocidente colonizador, vista pelo prisma da Índia, a antiga joia do Império, e eterno regresso desencantado ao país de origem, cuja confusa identidade, se perde na miríade de páginas. As primeiras páginas, são um exemplo de entrada in media res. com todo o vigor e capacidade de suspender e seduzir o leitor.  A sua prosa  é particularmente sugestiva ao misturar real e imaginário, assim como dar e baralhar referências culturais do Oriente e Ocidente, com especial relevo para a sátira ao materialismo deste. O tom oscila entre a sátira, a comédia, o onírico e o melodrama. Da cultura popular, à religião tudo pode ser encontrado neste livro, passando por uma rápida visão algo premonitória do terrorismo. A maneira como Rushdie encadeia cada história, recorda outro clássico: As Mil e Uma Noites.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

As Horas - Michael Cunningham


Título: As Horas 
Título original: The hours
Autor: Michael Cunningham
Editora: Gradiva
ISBN:972-662-705-2


Compreio-o na FNAC por sugestão tua.

Num tempo de fartura de livros. Numa compra compulsiva de esgotar o plafond de um cartão. Paguei. Rápido. Mais rápido do que li. Mais rápido do que terminei. Foram várias as tentaivas de iniciar. Em vão. Não estava preparada. E há tantas coisas mais para as quais não estou preparada. Não insisti. Conheço. Conheço-me. Voltava às minhas mãos. Um parágrafo. Dois. Uma resistência. Dor? Angústia? Solidão... e aborrecimento.

Anos depois, somente anos depois e após várias tentativas de ler Mrs. Dalloway, consegui engolir de um trago um livro que fantasia, entre outras coisas mais, a vida de uma  homónima. 

A Virgínia. A triste Virgínia (ou Virginia?). O querer fugir. O não estar bem sem saber porque não se está bem a não ser o não se estar. A mal amada, sendo (bem) amada, os dias que não terminam e as virtudes francas que vemos nos outros e ainda assim não nos trazem felicidade.
Porque, se pode ser só, amando. Porque a solidão existe entranhada nos ossos.

Laura. A questão. O que nos traz paz nem sempre nos pacifica. Realizamos conquistas e sonhos (vendidos?) para depois nos deitarmos numa cama de hotel, sós, apenas porque gostamos de sentir um afastamento à vida que aspirámos a viver.

Clarissa. A que se sente futil, não especial, não magnífica, não estrela, não artista, não iluminada. Clarissa. Atenciosa. Perceptiva. Rodeada de arrogância que não tenta combater. Compreender, sim. Sentir-se especial por um dia ter partilhado da luz especial que por vezes emana dos outros. Ainda que pobres. Ainda que tristes. Com raios de excelência e humanidade.


3.


3 mulheres.

E não. Ainda não vi o filme.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

LE SEIGNEUR DES ANNEAUX - J.R.R. TOLKIEN ( III Le Retour Du Roi)


Título: Le Seigneur Des Anneaux
 Título original: The Lord Of The Rings
Autor: J.R.R Tolkien 
Editora: Folio
 ISBN:9782070522699

Citando o autor: "A história torna-se lenda e a lenda torna-se mito". Na trilogia de  Tolkien estamos na presença de todo um mundo, tanto mais significativo, quanto estilizado segundo opções ideológicas e estéticas. Tal como Deus é indizível, e apenas acessível pela epifania, também aqui Sauron o arquétipo do mal é por nós desconhecido nos seus pensamentos mais humanos, se de resto o fosse. Sinceramente não me agrada nesta obra que admiro, o maniqueísmo estético, bem matizado na beleza diáfana dos elfos em contraste com a suposta feiura dos orcs e demais monstros, ao serviço de um mundo tirânico e organizado, segundo pressupostos racionais e industriais. Não diziam também que a Iª Grande Guerra, era para acabar com todas as guerras? Ingenuidades de hobbit?

segunda-feira, 16 de maio de 2011

QUANDO LISBOA TREMEU -DOMINGOS AMARAL


  
(Autor Desconhecido Triste tableau des effects par le tremblement de terre et incendies arrivés a Lisbonne le 1er Novembre 1775.)

 Título: Quando Lisboa Tremeu
Autor: Domingos Amaral 
Editora: Casa das Letras
 ISBN: 978-972-46-1986-6

Uma freira que se prepara para enforcar, numa cela da Inquisição, um capitão inglês exilado em Portugal, que olha a mulher a sair de casa pela última vez, sem que naturalmente o saiba, o inevitável Sebastião José, ainda não dito Marquês. Todo um conjunto de personagens e pessoas, cujo mítico terramoto vai alterar indelevelmente a vida. A aristocrática Lisboa que exibe as virtudes e esconde os mais reles vícios e costumes. O espetáculo mundano dos autos de fé, dos conventos, da religiosidade extrema, onde medram os pecadores, os promíscuos, os fornicadores, as meretrizes, os invejosos e corruptos. A eloquência do padre jesuíta Malagrida, e as multidões que desperta, não vão não obstante demover o renascimento de uma Lisboa, que é a memória mais recente de todos nós.

sábado, 7 de maio de 2011

O Obelisco Preto - Erich Maria Remarque

Título: O obelisco preto
Autor: Erich Maria Remarque
Editora:  Livros do Brasil
ISBN:  não designa

Alemanha. Pós-guerra. 1923. Assiste-se a uma reconstrução da Europa em cinzas. Alemanha. Não há carne. Não há leite. Somente desemprego, fome e inflação.
De narrativa directa e com uma simplicidade filosófica mas nunca pobre. Sem subterfúgios ou embelezamentos vãos. 

Uma empresa funerária. Um padre de argumentos exasperantes para quem combate a ideia de fé e religião. Mulheres racionais em saias de racha que não se dão e uma outra que ouve os grito das árvores e dos arbustos. Ludwig ou Rudolf? 

Humor. Sarcasmo. Bêbados que tropeçam e são enganados. Bebâdos que adormecem em caixões. Bebe-se muito. Bebe-se para esquecer o passado da guerra terminada. Bebe-se para esquecer o presente. Bebe-se porque nada mais há a fazer que não beber. E para comprar um dólar é necessário um bilião de marcos. 
E da fome e insatisfação renasce o orgulho nacional envergonhado pela humilhação de um governo que "aceita" as medidas impostas pelos vencedores da guerra. Há vozes que se levantam e tomam-se partidos: o comunismo ou o nacional socialismo.
Um livro que se engole.

A Luz em Agosto - William Faulkner



Título: A Luz em Agosto
Autor: William Faulkner
Editora:  Visão (Abril Controljornal Edipresse)
ISBN:  972611639-2

É no Sul. Num sul seco, espesso, terroso, suado. Num sul pobre de gente dorida. Sem amor. De solidão. Deus e a culpa. Deus e o arrependimento. Deus e nós. Racistas. Egoístas. Mesquinhos. Agressivos. Umbigos. Sempre desmesuradamente humanos. Um mundo dividido pela miserabilidade do tom da pele. Merecemos nós o Céu? Tememos a morte por causa do Inferno?
Christmas corre, cansa-se, foge. Cai e permanece. Faminto e sem fome. Levanta-se. Corre. Transpira. E Faulkner leva-nos com ele. Ritmadamente. Ao cansaço e aperto de quem estando cansado não pode parar.
Uma riqueza em gente.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Moby Dick


 
 
Título: Moby Dick
Autor: Herman Melville
Editora:  Wordsworth Classics
ISBN:  1-85326-008-6
 
 "Oh Man don't look too much into de fire". Pegando nesta citação, no contexto de uma obra fértil e seminal, sou assaltado por semelhante inquietação, ainda que na esperança que perante tão vasto oceano literário, logre dizer algo de aproveitável. Esta obra, tal como uma cebola ou um bolo de noiva, tem várias camadas de leitura.  Não sendo naturalmente uma manual de caça à baleia, relataria a trágica odisseia, da uma busca obsessiva,  da Baleia Branca.  Concedendo que cada época lê um livro segundo as suas possibilidades hermenêuticas, atentemos no primeiro encontro entre Ismael e Queequeeg o arpoador da Oceânia. Na sua aparência tudo contrasta com o que se poderia esperar num ocidental como Ismael: as tatuagens, as cabeças encolhidas que trás à cintura, etc.  Ambos vão partilhar a mesma cama, na estalagem, e Ismael reconcilia-se com os seus medos, repetindo para si mesmo que o eventual antropófago é um homem como ele, tão temível ou louvável, acordando nos seus braços, como se fosse a sua esposa. Este raciocínio algo prosaico para a época, seria algo ousado em 1851 data da publicação da obra.  Bastaria pensar que a emancipação dos escravos, apenas vai ocorrer em 1863, sobre a presidência de Lincoln, isto nos EUA.  Segundo a mesma linha de abordagem, cada arpoador do Pequod, representa uma raça, segundo a visão antropológica oitocentista.  A possível alusão homossexual, e algo púdica, patente nas palavras de Ismael, deve ser encarada com cuidado.  De facto na época de Melville, teríamos decerto uma leitura menos freudiana dos nossos actos, logo menos receio de afirmações e gestos mais afectivos e sinceros entre amigos masculinos.  Cada uma das personagens principais, representa um ponto de vista sobre a tragédia da condição humana.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Families and How to Survive Them




Título: Families and How to Survive Them
Autor: Robin Skynner e John Cleese
Editora: Vermillion, 1997 (1º Edição).
ISBN: 0-7493-1410-9

Definitivamente estamos numa época em que a família, tal como tanta coisa no mundo actual, está algures em crise ou metamorfose. Várias solucões do senso comum, ocorrem-nos sempre. Porque é que aquela família parece tão feliz? O que é um casamento bem sucedido? Em que medida o meu passado, condiciona o meu presente e futuro?  Sendo os assuntos tratados de forma séria, existe um indubitável sentido de humor ,na forma de diálogo natural adoptada; não fosse John Cleese tão bem conhecido pelo ser humor tão inteligente como terrorista, na saudosa série: "Monthy Phython's Flying Circus" e nos filmes subsequentes, pela mesma equipa que integrou.  Tenha ou não tenha medo do seu futuro terapeuta, este livro pode ser de grande utilidade, pela forma organizada e pedagógica como apresenta os conteúdos, na esperança que conceitos banais como felicidade, harmonia e bem estar não estejam somente na abstracção conceptual.
 


sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

ESCRITOS ÍNTIMOS


Título: Escritos Íntimos
Autor: Charles Darwin
Editora: Europa América, 2010.
ISBN: 978-972-1-06127-9
Título original:  Écrits intimes

Existe por vezes uma obsessão banal, em recolher e editar todos os escritos de alguém famoso, descurando muitas vezes o necessário critério do interesse científico, filosófico ou literário. Não será certamente este o caso, pois esta recolha de cartas e apontamentos pessoais, ajuda a conciliar a figura do cientista e do homem, e do diálogo incessante entre os dois.  É também um pequeno retrato de uma época, que nos aparece ,como cada vez mais distante.  Darwin discorre aqui sobre a sua partida no Beagle (1831), sobre o casamento (1838),  e sobre os filhos, nomeadamente  Anne Elizabeth Darwin, falecida precocemente (1851), e os demais. (1839-1856). Temos também uma carta da sua esposa Emma, sobre os perigos do ateísmo, e uma singular lista de objectos para uma viagem de repouso (1859).

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

SEXUALIDADE E REPRESSÂO

Título: Sexualidade e Repressão
Autor: AAVV
Editora: Delfos Editores, 1972.

Colectânea de pequenos ensaios, à qual o título dá o tema aglutinante. Com a eventual distância lúcida de 40 anos, poderíamos talvez afirmar que a existência de uma ditadura em ocaso, mobilizou o combate político e a necessidade de uma educação cívica e cultural de tendência universalista.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

12 Contos Europeus

Título: 12 Contos Europeus
Autor: AAVV
Editora: Quetzal Editores, 1994.
ISBN: 972-564-199-x

Uma interessante compilação de contos, que bem ilustra a unidade e diversidade da Europa, que geograficamente terminaria nos Urais. Alternativa de consolação, à miríade de discursos, tratados e homilias políticas, cuja gestão nestes tempos aflitos, parece cada vez mais exígua e difícil. Adverte-se o amigo leitor, que Carlos Magno não sabia ler, Napoleão inspirou o Guerra e Paz, e Hitler escreveu o Mein Kampf. Independentemente da bondade da tradução, possamos eventualmente dizer, depois de prazenteira leitura, que a nossa pátria são as línguas europeias.
Este livro nasceu enquanto projecto, do desejo de doze editoras de países europeus, em apresentar, um dos seus escritores. Problematizando um pouco o conceito de Europa, pode aproveitar e descobrir qual dos seguintes países, não faz parte da União Europeia, na lista que passamos a apresentar, incluindo os autores:

Alemanha: Henning Boëtius, Eichborn Verlag; Dinamarca: Ib Michael, Tirdene Skiffer; Espanha: Javier Marías; França: Annie Saumont; Grécia: Menis Koumandareas Holanda:Atte Jongstra; Inglaterra: Michéle Roberts Irlanda: Brian Leyden; Itália: Paola Capriolo; Noruega: Kjell Askildsen Portugal: Nuno Judíce; Suécia: Ana Valdés.

Desta lista do ponto de vista do meu gosto, necessariamente subjectivo, gostaria de salientar Paola Capriolo, da qual já conheço o notável: Vissi d'Amore.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

A Lã e a Neve - Ferreira de Castro




















Título: A Lã e a Neve
Autor: Ferreira de Castro
Editora: Guimarães e C.ª

Editado pela primeira vez em 1947, descreve a vida das populações da Serra da Estrela, durante a época da IIª Guerra Mundial. No contexto deste conflito, os operários de uma fábrica de tecelagem, anseiam por um mundo melhor, com a vitória aliada. Esperança indefinidamente adiada, ao tomarem consciência que afinal nada se altera na opressão que vivem. Neste contexto narrativo, a obra remete para um programa algo hesitante, entre o neo-realismo e o naturalismo.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Cantando Embalei A Morte - Ana Isabel Reis


Título: Cantando Embalei a Morte
Autor: Ana Isabel Reis
Editora: Tinta Permanente, 1999.

Actualmente a nossa morte, quando natural e não súbita, é uma morte envergonhada no anonimato de um qualquer hospital, cercados e invadidos pela mais recente tecnologia médica.
Este livro é um relato extremamente pessoal, de uma filha que convive com a morte da mãe, sendo ao mesmo tempo universal, nos sentimentos e reflexões que nos confia. Uma narrativa que me comoveu pelo seu despojamento e confessionalismo. Um testemunho, que se recusa a abdicar da dignidade do ser humano, independentemente da situação extrema em que se encontre. Um pretexto também, para que todos nós, possamos reflectir um pouco sobre a solidão e vulnerabilidade da velhice, num século onde aguardamos com alguma inquieta e inquietante expectativa, a possibilidade de avanços dramáticos na longevidade humana, em função dos progressos genéticos, não esquecendo aquilo que ainda entendemos por família, na movediça teia de relações da contemporaneidade.
Não sendo de todo o tema do livro, e ainda assim, seria impossivel não recordar a questão da eutanásia, nas suas vertentes passiva e activa.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Uma Noite na Toca dp Lobo - Tomaz de Figueiredo

Título: Uma Noite na Toca do Lobo
Autor: Tomaz de Figueiredo
Editora: Verbo, 1972.
Colecção: Biblioteca Básica Verbo, nº 70.
ISBN: Não tem

A escrita de Tomaz de Figueiredo (1902-1970) pela sua agilidade, generosidade vocabular e prolixidade, merece ser lembrada também, pela sua capacidade de usar com eficácia diversos estilos literários, tanto pretéritos como mais recentes; o que é uma característica dos clássicos. A utilização recorrente do diálogo interior, remete para uma dimensão onírica e arquetípica, algures presente no inconsciente colectivo português, revisitada por um romantismo tardio que nos seus limites, toca um sentimento barroco.
Deve ainda ser referido o seu conhecimento de um vernáculo regional, certamente caro à sua infância em Braga.
Neste romance, um homem de meia-idade, regressa à sua remota juventude, a partir das invocações de um serão de família.
Entre as suas obras podemos referir: Dom Tanas de Barbatanas (2 volumes); Conversa com o Silêncio (1960); O Dr. Geral (1962); O Magnífico e Sem Par (1964); Noite das Oliveiras (1965); Teatro I (1965); Tiros de Espingarda (1966) A Má Estrela; A Outra Cidade; Dicionário Falado (Postumamente).

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Segredos do Cosmos - Colin A. Roman

Título: Segredos do Cosmos
Autores: Colin A. Roman
Editora: Verbo, 1973.
ISBN: Não tem

Um livro de divulgação científica, que tendo em conta a sua data de publicação terá apenas um interesse em termos de história da ciência, da sua divulgação popular, e enquanto eventual pedagogia de o fazer. Ainda assim, cumpre uma interessante viagem pela vastidão e dimensão do Universo, o sistema solar, a Via Láctea, e as galáxias; não esquecendo uma breve explicação fundamental da teoria atómica ao tempo, enquanto ciência auxiliar da astronomia moderna. São também explicados os instrumentos e técnicas do astrónomo, como os telescópios, a fotografia, a câmara de electrões, o espectroscópio e rádiodetelescópio.

domingo, 6 de junho de 2010

THE SECRET GARDEN - FRANCES BURNETT


Título: The Secret Garden
Autor: Frances Hodgson Burnett
Editora: Penguin Popular Classics, 1995
ISBN: 0-14-062153-9
Língua: Inglês

Burnett (1849 - 1924) apresenta neste livro uma visão tão interessante quanto vitoriana e idealizada, do mundo infantil. Sendo supostamente destinado a crianças, não deixa de ser de utilíssima leitura para todos os adultos, em particular os pais, pois reconcilia-nos com uma literatura que não cai no moralismo primário de muitos epígonos, exercitando com mestria desde a primeira página todo o que um bom livro nos pode trazer, nomeadamente a capacidade de criar uma cumplicidade criativa com o leitor na construção da narrativa, contrapondo-se assim ao facilitismo, grosseria e violência de tantos produtos de entretenimento actuais, que as crianças parecem condenadas a adorar, já que os adultos não os desdenham...






terça-feira, 11 de maio de 2010

BLUE LIGHT - Walter Mosley


Título: Blue Light
Autor: Walter Mosley
Editora: Warner Books, Inc. 1999,
ISBN: 0-446-60692-B
Língua: Inglês

Uma viagem poética e cruel ao coração urbano, que palpita em todos os que o habitam. Misteriosas luzes azuis, ao tocar os humanos, mudam o seu destino para sempre. O local de menor visibilidade é sempre aquele que se situa... debaixo da luz. Uma excelente novela, que mistura a ficção científica com o terror. A escrita simples e depurada acentua o efeito dramático e quotidiano. A ficção e o fantástico, quando bem exercitados, são um excelente pretexto para revisitar a natureza humana.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Jane Eyre - Charlotte Brontë










Título: Jane Eyre
Autor: Charlotte Brontë
Editora: Penguin Books, 1962
Língua: Inglês

Charlotte Brontë, ou Currer segundo o pseudónimo, nasceu em 1816, época onde a inglaterra aparece como a potência imperial liderante, depois de derrotada a França napoleónica. Enveredou pela escrita à semelhança das suas três irmãs: Anne, Emily, e Charlotte Brontë. À data da impressão original deste livro em 1847 foram também editados: Vanity Fair de Thackeray e o Tancred de Disraeli.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

THEORY OF FILM - SIEGFRIED KRACAUER

Título: Theory of Film
Autor: Siegfried Kracauer
Editora: Oxford University Press,1960

Um ensaio que à data da sua publicação, constituiu uma obra de referência e pioneira na língua inglesa sobre a teoria e estética do cinema, que aprofunda e analisa com mérito ao recorrer a conceitos e métodos que extravasando para além da linguagem do cinema, encontram a sua aplicação na teoria da estética e filosofia em geral. Com fotogramas e fotografias a preto e branco.



quarta-feira, 14 de abril de 2010

Memórias de Uma Menina Bem - Comportada

Título: Memórias de Uma Menina Bem - Comportada
Autor: Simone de Beauvoir
Editora: Livraria Betrand

O primeiro volume de memórias da escritora, a que se seguem; A Força da Idade, A Força das Coisas e Balanço Final.
Simone de Beuvoir nasceu em Paris em 1908, foi assistente de filosofia na Sorbonne em 1929 e mais tarde professora em Marselha, Ruão e Paris. Abandona o ensino em 1943 para se dedicar à escrita, saindo o seu primeiro romance nesta data. Foi também viajante assídua, sendo o seu trabalho influenciado em particular por Sarte, Merleau Ponty e Simone de Beauvoir. Um texto algo datado ao eleger como objecto de contestacao a família burguesa e a sua tradição religiosa onde Deus é afastado dos assuntos humanos, em contraponto com o assumir de um existencialismo que defende a liberdade e responsabilidade das escolhas, tendo como corolário o trabalho politico.

A l'ombre des jeunes filles en fleur
à l’ombre des jeunes filles en fleur, elles ne vont pas croire leur malheur. Elles écoutent la radio, elles boivent du thé. Au degré zéro de la liberté, elles ne savent pas que la bourgeoisie n’a jamais hésité même à tuer ses fils.

Proust

terça-feira, 6 de abril de 2010

Conto Vivo

Título: Conto Vivo
Autor: Pedro C.
Editora: Edigarbe, 2002

Um exemplo sintómático tendo em conta a data em que foi editado, do que poderíamos chamar a permanência do neo-realismo em termos de programa literário.
Os trabalhos e os dias de Joaquim António, da Praia da Galé, e simultaneamente o que pretende ser um retrato de uma comunidade, com o seu modo de ser e estar, em particular no léxico. Alves Redol (1911-1969), Soeiro Pereira Gomes (1909-1949) ou Manuel da Fonseca (1911-1993) decerto sorririam.

Este texto ganhou o 1º prémio do concurso literário: "Descubra a Nossa Terra", de 2002.

terça-feira, 23 de março de 2010

Money - Martin Amis




















Título:
Money
Autor: Martin Amis
Editora: (sic) idea y creación editorial, s.l., 2010
ISBN: B-45802-2009

As aventuras e desventuras de John Self, pornógrafo entusiasta e campeão do senso comum. Escrita seca, crua e realista, onde paira o fantasma de Bukoswski, e marcada por um ritmo digno de uma impressora de notas, depois de uma noite de orgia com um especulador neo-liberal. Supostamente, uma sátira ao liberalismo optimista dos anos 80. Poder dinheiro e sexo são o leitmotiv deste conjunto de personagens que se cruzam, sendo as suas relações marcadas por um cinismo tão desconcertante, como paradoxalmente honesto. Algures no texto a criatura (John Self), cruza-se com uma projecção do seu criador (Martin Amis). A edição original é de 1984. Profética?

Vamos fazer imenso dinheiro juntos. Fazer imenso dinheiro. sabem, não é assim tão difícil.

terça-feira, 16 de março de 2010

A Herança de Eszter - Sándor Márai




















Título: A Herança de Eszter
Autor: Sándor Márai
Editora: idea y creación editorial, s.l., 2010.
Depósito legal: B-45803-2009

O reencontro de uma mulher solteira com Lajos, sedutor amoral, que a seduziu no passado, traindo o seu amor e roubando-a, assim como a sua familia. Uma voz sentimental no feminino, suportada por um escritor masculino. A inevitável complexidade das relações humanas e dos sentimentos. A edição original é de 1939. Márai exilou-se nos EUA, depois de fugir da Hungria a sua terra natal, em 1948. Suicidou-se em 1989 e foi também poeta e dramaturgo. Escreveu uma novela, cujo personagem é Casanova, de que conheço a edição inglesa: Casanova in Bolzano.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Bartleby & Companhia - Enrique Vila-Matas




















Título:
Bartleby & Companhia
Autor: Enrique Vila-Matas
Editora: Assírio e Alvim, 2001
ISBN: 972-37-0629-6

Qual a razão que leva um escritor, a deixar de escrever, ou em última análise nunca ter escrito, enquanto potencial escritor? Niilismo? Vaidade? A afirmação de uma "não-escrita" absoluta? Vila-Matas discorre de forma inteligente e sobejamente erudita, sobre este tema. O seu texto é igualmente um objecto algo enigmático, pois situa-se algures entre o ensaio e o "diário de escritor". Temos como pretexto inicial para esta viagem: Bartleby, o singular personagem do conto homónimo de Melville, (Bartleby The Scrivner: A Story of Wall Street) cuja advertência sempre que é convidado a contar um episódio da sua vida, fica a pairar sobre o leitor, como um omen: Preferia não o fazer.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Uma Carta para Garcia seguido de O Pessimismo Nacional - Elbert Hubbard; Manuel Laranjeira















Título: Uma Carta para Garcia seguido de O Pessimismo Nacional
Autores: Elbert Hubbard e Manuel Laranjeira
Editora: Padrões Culturais Editora, 2009.
ISBN: 978-989-8160-65-2

Serve este interessante livrinho para lembrar dois pensadores muito diferentes, no contexto geográfico e mental. O primeiro Elbert Hubbard (1856-1915), nasceu nos Estados Unidos, e representa uma tradição cara a este pais, de valorização da iniciativa individual e do seu mérito, assim como do senso comum e pragmatismo, enquanto vectores morais e do sucesso. Encarna em parte o mito fundador dos EUA, como nação jovem e republicana, que não conheceu as barreiras europeias do preconceito social, inerente as antigas sociedades europeias. Em suma é um pensamento vitalista, que agradaria a um Henry Ford, ou a qualquer escola liberal defensora do capitalismo e liberalismo. Nos antípodas, podemos situar Manuel Laranjeira (1877-1912) como fatalista em relação a um Portugal adiado e decadente, condenado pela sua natureza a um atraso civilizacional. Isto independentemente de todas as tentativas Regeneradoras, que começam no século XIX. Cumprindo no limite o seu pessimismo, Laranjeira vai cometer suicídio.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

The Art of Eric Stanton For the Man who knows is Place - Eric Stanton

















Título: The Art Of Eric Stanton For the Man who Knows is Place
Autor: Eric Stanton
Editora: Benedict Taschen Verlag GmbH, 1997
ISBN: 3-8228-8499-5

Os comics são um dos grandes veículos de divulgação da cultura popular dos Estados Unidos. Se o traço de Stanton é clássico, não menos serão os seus temas dentro de um contexto mais particular e peculiar; concretamente a humilhação e tortura física masculina por ideais amazonas atléticas, cujo aspecto musculado nao coloca em causa o conceito de dominação feminina. Para além de apresentar excertos da vasta carreira do desenhista/argumentista, são também incluídas fotos que a documentam, e que estabelecem um interessante paralelo entre a ilustração e a fotografia, perante um tema idêntico.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Morreram pela Pátria - Mikail Cholokov




















Título: Morreram pela Pátria
Autor: Mikail Cholokov
Editora: Europa América, 1972
Colecção: Livros de Bolso

Ainda que apresente uma visão algo estilizada e programática das personagens, ideário tão caro a uma escrita conotada com um momento histórico cultural da Esquerda, não deixa de ser um livro interessante pela capacidade visual do autor, e pelo seu sentido de humor e sensibilidade perante a grande alma russa, o que transcende qualquer ideologia.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

O Físico - Noah Gordon

Título original: The Physician
Autor: Noah Gordon
Editora: (sic) idea y creación editorial, s.l., 2010
Colecção: Biblioteca Sábado
ISBN: B-45798-2009

Um interessante romance formativo, à semelhança mutatis mutandis de obras como David Copperfield, (Charles Dickens), A Montanha Mágica (Thomas Mann) ou A Obra ao Negro (Marguerite Yourcenar). O protagonista Rob Cole, deambula enquanto criança pela Londres medieval, sobrevivendo como saltimbanco. Em simultâneo descobre progressivamente os aspectos mágicos, inerentes ao acto de curar, conhecendo assim a sua vocação. Um retrato colorido da Idade Média, época em muitos sentidos semelhante à actual pelo seu ecletismo, fragmentação e misticismo. Aliás tal período histórico foi sempre fértil em sugerir idealizações literárias que desde o romantismo pululam no imaginário popular contemporâneo, exemplificadas no ciclo: As Brumas de Avalon (Marion Zimmer Bradley). Noah Gordon não participa neste livro, e quanto a nós felizmente, de tal facilitismo ficcional. Como par ideal para este texto, sendo a projecção especulativa de "um futuro passado", seria oportuno referir: A Próxima Idade Média de Roberto Vacca.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Vanity Fair - William Makepeace Thackeray










Título original:
Vanity Fair
Autor: William Makepeace Thackeray
Editora: Wordsworth Editions Limited, 1998
ISBN: 1 85326019 3

Uma excelente sátira da sociedade oitocentista inglesa no início do século XIX, em plena época napoleónica, e início da definitiva supermacia do império britânico no contexto das nações, pelo menos até ao início da Segunda Guerra Mundial.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Teach Yourself English Grammar - Gordon Humphreys, M.A.

Título original: Teach Yourself English Grammar
Autor: Gordon Humphreys
Colecção: Teach Yourself
Editora: English University Press, 1958

Um útil livro que ensina os fundamentos gramáticos, de uma língua que muitos dizem conhecer, mas nem todos sabem falar ou escrever. Inclui exercícios práticos em inglês com as soluções, o que admite que quem o use, já tenha um conhecimento básico.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Lawrence Of Arabia - Richard Aldington









Título original:
Lawrence Of Arabia
Autor: Richard Aldington
Editora: Four Square, 1960

Na contracapa deste livro Lawrence é descrito como um eventual homosexual, mentiroso e "poseur", o que provocou um grande escândalo desde a primeira edição do livro em 1955. Se tais características seriam um suposto estigma em 1960, hoje em dia poderiam muito bem ser apanágio de um sucesso e carisma mediático. Ainda assim não estamos perante um livro descaradamente sensionalista, pois procura situar documentalmente o que é referido, apoiando-se também numa vulgarização psicológica. Faltaria decerto uma melhor caracterização da época, de forma a podermos entender melhor o tão polémico herói inglês. Resultado de uma investigação pessoal, as afirmações de Aldington foram posteriormente passiveis de confrontação com o que consta em arquivos desclassificados do governo inglês.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Algebra - P. Abbot















Título original: Teach Yourself Algebra
Autor: P. Abbot
Editora: The English University Press, 1958
Colecção: Teach Yourself Books

A algebra é um ramo da matemática, pura que estuda as regras das operacões e as construções e conceitos que daí derivam incluindo: termos, polinómios, equações e estruturas algébricas. Ainda que já domine tal conceito, eis uma excelente oportunidade para recordar ou aprender um pouco mais, de forma prática e objectiva.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Local History - Francis Celoria










Título original: Local History
Autor: Francis Celoria
Editora: The English University Press, 1958
Colecção: Teach Yourself Books

Sabe a história da colectividade da sua Freguesia? Que figuras notáveis a habitaram? Que variações da paisagem material e natural conheceu? Um interessante e útil manual sobre como investigar a história local. Ainda que elaborado no contexto da história do Reino Unido, não deixa de apresentar sugestões metodológicas úteis para qualquer espaço geográfico ou época. Ainda assim, tenha-se em atenção a data da edição o que suscita que em vários aspectos práticos da heurística já não esteja actualizado, em função das novas tecnologias. Ainda que quem o lê não seja um especialista académico no assunto, a linguagem objectiva clara e concisa ,torna este livro muito útil, sendo esse o seu objectivo enquanto dirigido a amadores. O típico humor britânico não falta naturalmente. No final de cada capítulo uma lista de livros sobre o assunto que encerra, nomedamente fontes escritas.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

O Filho Pródigo - Hall Caine

Título original: The Prodigal Son
Autor: Hall Caine
Editora: Livraria Clássica Editora, 1939

Sexta edição traduzida de um livro que conheceu um sucesso popular razoável, desde a sua primeira edição inglesa em 1904. Tem como prefaciadora a escritora Maria Amália Vaz de Carvalho. A trama pessimista que tem lugar na Islândia, apresenta um drama sentimental, datado e ao gosto da classe média da época com a indispensável lição moralista, perante o que se chamaria na vulgarização psicológica da altura fraqueza de carácter. Sir. Thomas Henry Hall Caine (1853-1931), foi dramaturgo e novelista, tendo alguns do seus livros sido adaptados para cinema. Os seus textos usualmente apresentam um trángulo amoroso, ainda que também não tenha excluído temáticas de natureza social. Curiosamente o prefácio da obra refere o autor como calvinista, informação que carece de verificação. Hall Caine viajou bastante e utiliza tais reminiscências na composição dos seus livros. Conheceu várias personalidades defensoras do socialismo e foi membro da House Of Keyes. Concomitantemente à sua actividade literária, exerceu a profissão de desenhista técnico.






quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

The Collected Stories - Arthur C. Clark









Título original:
The Collected Stories
Autor: Arthur C. Clarke
Editora: Gollancz, 2000
ISBN: 1 85798 323 8

Uma interessante e variada colectânea de short stories, pelo inventor do satélite artificial. Arthur C. Clarke foi um escritor assaz prolífico e fecundo ao longo de muitas décadas, recordando-se aqui a feliz adaptação de um dos seus romances: 2o01: A Space Odyssey por Stanley Kubrick. Texto aliás que conheceu uma sequela: 2010: Odyssey Two.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

O Amante do Vulcão - Susan Sontag

Título original: The Volcano Lover. A Romance.
Autor: Susan Sontag
Editora: Sicidea, 2009.
Colecção: Biblioteca Sábado
Depósito legal: B- 331000-2009



Uma interessante reedição do romance histórico de uma autora, que se repartiu entre o ensaio e a ficção. Entre o primeiro poderíamos recordar: Fascinating Fascism; Regarding the Pain of Others e On Photography. O clássico triângulo amoroso entre o homem burguês e prudente: Sir. William Hamilton, o almirante Horatio Nelson (celebrado e trágico héroi da batalha de Trafalgar) e Emma Lyon. Considerando que a História se baseia em factos, todos estes nomes correspondem a pessoas reais, assim como é real, a sua relação descrita no romance. Ainda assim a citada disciplina científica tem as suas lacunas, que não escapam à vontade de narrar do escritor. Conceptualmente um dos problemas de qualquer ficção história é a tensão entre o verosímil, o facto e o interesse do leitor contemporâneo; algo que Sontag resolve de maneira elegante e absorvente, no contexto histórico-literário da ascensão da Inglaterra como potência imperial de primeira ordem. Não deixa de ser interessante uma errante colagem ao programa estético romântico, visível por exemplo no título, o que torna esta narrativa exemplar na sua forma e conteúdo, enquanto todo coerente.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Bluff your way in Folk and Jazz - Peter Williams














Título:
Bluff your way in Folk & Jazz
Autor: Peter Williams
Editora: Wolfe Publishing Lda, 1969
Colecção: The bluffer's guides
SBN: 73240119 5

Um interessante guia ainda que naturalmente datado, fazendo uma boa síntese da história do jazz e música folk, cujas relações de proximidade e identidade são naturalmente evidentes. Livro servido com a humildade e sentido de humor necessário. Ideal para transportes públicos, podendo ser discretamente depositado num bolso, não suscitando assim o eventual "embaraço social" de ler.


quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Frontalidade (Ideias, Figuras e Factos) - Mário Saraiva


Título: Frontalidade (Ideias, Figuras e Factos)
Autor: Mário Saraiva
Editora:
Universitária Editora, 1995.
ISBN: 972/700/040/1


Depois de ler este livro desejei não estar perante um exercício calculado de propaganda e demagogia. Enfim tenho que conceder o benefício da dúvida ao autor, tenho em conta que não o conheço e recordando Platão, os livros não podem defender quem os escreve ,argumentando dinamicamente com o leitor. Ainda assim há conceitos que se podem defender com objectividade, a saber:
- A figura do Rei, sociologicamente não é uma figura equidistante de todos os grupos sociais. Naturalmente que também tem interesses políticos. Bastaria recordar figuras tão polémicas como D. Afonso IV, D. João II e D. Carlos. D. Afonso IV mandou executar D. Inês, acto muito pouco cristão, se considerarmos a moralidade oficial da época, mesmo que se invoquem razões de Estado. D. João II apunhalou pessoalmente o Duque de Viseu, seu primo e cunhado, a pretexto de uma conspiração. Finalmente D. Carlos dissolveu o Parlamento, ainda que num contexto de crises políticas e económicas, instalando-se a ditadura do Primeiro-ministro João Franco, com a conivência do rei.
- Indo um pouco mais longe geograficamente e no tempo, seria ingénuo entender os imperadores romanos como representantes das virtudes do império. Muito pelo contrário muitos deles condenavam senadores à morte, para depois serem por suas vez assassinados pelos últimos, num frenesim digno de um grupo de piranhas ou das actividades da máfia.
- Chocado pela demagogia e corrupção do parlamentarismo representativo democrático, Mário Saraiva advoga o regresso da Câmara Corporativa. Tal conceito define-se por uma assembleia de funções meramente corporativas, que representa os diversos agrupamentos culturais, profissionais e económicos. Sinceramente não entendo como tal paradigma poderia salvar-nos da corrupção.
- Naturalmente a democracia parlamentar não é um sistema ideal, sem dúvida que temos corrupção e demagogia. Mas pelo menos enquanto cidadãos de direitos iguais, podemos representar e ser representados, podendo também fundamentadamente denunciar. Atenção que falo aqui em igualdade jurídica perante a lei. A igualdade humana quanto ao intelecto, moral, formação ou outras características não é subscrita por mim e aqui concordo com Mário Saraiva O voto democrático não é um valor equivalente a verdade. É um valor de estabilidade e concordância num dado momento temporal.